
A Neta do Arcediago
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — UM BERÇO BORRIFADO DE SANGUE.
Convém, primeiro, saber quem é este cavalheiro, que salta garbosamente de uma carruagem com uma dama vestida de branco, defronte do teatro de S. Carlos, em Lisboa, em uma noite de fevereiro de 1838.
Por não apurar impaciencias, diga-se tudo já. Este cavalheiro é Luiz da Cunha e Faro. Aquela dama é… Nem tanta bondade! Não se pode dizer, por ora, quem é a dama. Se o leitor é esperto, como suponho, há de adivinhá-la logo, e, de certo, fica muito contente da sua penetração.
Luiz da Cunha e Faro tem vinte e cinco anos. É um homem feio, segundo a opinião masculina, que se acha em harmonia com a sua. Não era esta, porém, a opinião das mulheres. Algumas que por capricho, em publico, o desdenhavam como feio, desmentiam-se em particular… Não digo que fossem todas; mas também não é preciso o sufragio de todas para a reputação de um homem feio.
A que chamam v. ex.as feio? Feio é o demônio, dizia minha avó. São e escorreito é o essencial—dizem as velhas, quando as ilusões da formosura não tem nada a fazer com elas, nem, por isso mesmo, elas têm direito a optar entre o feio e o bonito.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.