
A Brasileira de Prazins: Cenas do Minho
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — INTRODUCÇÃO
Entre as diversas moléstias significativas da minha velhice, o amor aos livros antigos—a mais dispendiosa—leva-me o dinheiro que me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de pilulas e tizanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me illustro com os archaismos, arruino o estomago e enferrujo o cérebro em uma caturrice acadêmica.
Constou-me aqui há dias que a snr.ª Joaquina de Villalva tinha um gigo de livros velhos entre duas pipas na adega, e que as pipas, em vez de malhaes de pão, assentavam sobre missaes. O meu informador denomina missaes todos os livros grandes; aos pequenos chama cartilhas . Mandei perguntar à snr.ª Joaquina se dava licença que eu visse os livros. Não só m'os deixou ver, mas até m'os deu todos—que escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroço de bibliomano. Eles, gordurosos, úmidos, empoeirados, pareciam-me sedutores como ao leitor delicadamente sensual se lhe figura a face da mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverisada de bismutho.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.