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Estrelas Propícias

Camilo Castelo Branco (1825–1890)

Romance3 h 20 de leitura177 páginas

O começo — I.

Navegando contra a corrente do Lima—o rio das saudades e dos pavores da mitologia—vereis, a meia légua distante de Vianna, na margem direita, uma casa apalaçada, em parte cantaria que os séculos denegriram, em parte edificação moderna, caiada, tingida, variegada, coisa sem graça, sem poesia, que toda lhe tira a majestosa e veneranda avó, ali à beira, com o seu toucado de ameias e colares de embrincadas laçarias.

Da margem do rio ao edifício conduz uma vereda relvosa ladeada de álamos, cilindras, hidranjas, e outras arvores e arbustos, que ensombram a convidativa álea. Lá no tôpo entrevêdes um chafariz, rodeado de bancos de pedra, e abobadado por um pavilhão de chorões, [6] cujos troncos a mão do tempo torneou e retorceu em caprichosos feitios.

Se mandaes parar o barquinho diante desse obscuro alcáçar das esquecidas musas do idílio, desse manancial dos gratos devaneios, ao abrir de uma manhã de agosto, ou ao entardecer de um dia da estação do outono—a mais amável do Minho—aí ficareis como arrobados, sentindo sem saber o que, desejando sem dar limites ao desejo, aspirando a enlevos que vos não parecem da terra, nem os sabereis dizer, se cuidaes que vos transportam ao céu. O que vedes, se sabeis copiar a natureza na tela, no verso, ou na prosa, podereis conseguir que nós também o vejamos em sombra; o sentir, porém, que semelhante espetáculo, a tal hora, vos sugere, sede embora Raphael, Fénélon, ou Delille, que não lograreis verter…

Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.

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