
O Crime do Padre Amaro, Cenas da Vida Devota
Eça de Queirós (1845–1900)
Um padre jovem, uma cidade pequena, e a instituição fechando os olhos.
Por que ler
O primeiro grande romance de Eça, de 1875, e o mais direto: uma acusação ao clero de província e à sociedade que o sustenta. Foi escândalo, e o autor reescreveu o livro três vezes. A raiva ainda está toda lá.
Para observar
Note quem paga o preço no fim, e quem não paga nada. Não é distribuição por acaso — é a tese.
O começo — I
Foi no domingo de Paschoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Migueis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões . Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica—que o detestava—costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
—Lá vai a giboia esmoer. Um dia estoura!
Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe—à hora em que defronte, na casa do dr. Godinho que fazia anos, se polkava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em [2] geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.
Nunca fora querido das devotas: arrotava no confessionário; e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao principio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de labia !
Eça de Queirós (autor) morreu em 1900; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1971.