O Telefone
O começo
O Chagas, moço de vinte e cinco anos, amanuense numa secretaria de estado, era tímido, o que, aliás, não o impediu de corresponder prontamente aos olhares libidinosos que certa noite - por sinal que era domingo - lhe atirou de um camarote, no Recreio Dramático, uma bonita mulher, um pouco mais velha que ele, acompanhada pelo marido, muito mais velho que ambos.
Este parecia interessado pelo espetáculo: tinha os olhos pregados no palco, sem desconfiar nem de leve que a sua cara-metade namorava escandalosamente, às suas barbas, um jovem espectador da plateia.
Depois de castigado o vício e premiada a virtude, o Chagas acompanhou, a certa distância, o casal até o Largo de São Francisco e, apesar de tímido, teve a coragem de sentar ao lado da senhora.
Dali até São Cristóvão, como não se pudessem falar, entenderam-se ambos, a princípio com os cotovelos e os joelhos, depois com os pés e afinal com as próprias mãos, que se apertaram furtivamente, quando, nas alturas do canal do Mangue, o marido deixou de fazer considerações críticas sobre o dramalhão que ouvira, e começou a cochilar, como todos os maridos confiantes.
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