O Tapacurá de Cendi
Raul Pompeia (?–1895)
O começo — I
A horda inteira embrenhou-se no espesso dos matagais… Se dava a aragem, a ramaria, abrindo-se, entremostrava, na meia escuridade do coração da mata os corpos nus dos guerreiros, sarapintados de rubras listas de urucu; mais adiante, se uma clareira rasgava o pano de verdura florestal, surgiam cabeceando os selvagens…
O sol cadente lançava-lhe frechas de luz aos feixes, como o velho combatente que não quer descansar no fundo da igaçaba antes de ter esvaziado o carcás. A multidão respondia, agitando alegremente os braços; saudavam em despedida o astro com as canções de guerra; e os hinos misturavam-se de um modo incrível aos derradeiros fogos do dia. O rumor crepitante dos maracás fazia crer que a tribo, em marcha, caminhava ardendo como serpente de fogo.
Depois, tudo se apagava e a vozeria e o chocalhar dos maracás arrefecia um pouco, somava-se com o uníssono vasto e rumoroso da natureza; por fim, na última colina, viam-se rutilar as penas vivamente coloridas dos cocares e das túnicas… E o sol a inundar balsedos e balsedas, sem mais ferir um guerreiro.
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