No Trem de Ferro
Paulo Setúbal (?–1937)
O começo
Manhã. Sol claro… A olhar pela vidraça, / Enquanto corre o trem, flamante e rubro, / Vou contemplando a vigiliana graça / Desta paisagem matinal de outubro.
Linda aquarela: uma rechã molhada, / Capuavas ralas, fiapos de neblina, / E a cicatriz vermelha duma estrada / Golpeando o dorso verde da colina.
Graves, manchando os ermos da planura, / Pastam, ao longe, sossegadas vacas; / Vai pelo azul, japonizando a altura, / Um revoar gralhante de baitacas.
Por tudo esplende uma alegria clara, / Um sol de festa, um ar de juventude… / E nisto, um silvo: o trem de ferro pára / Numa longínqua estaçãozinha rude.
Abrindo o carro, ali, nessa distância, / — Fundo sertão que eu toscamente pinto, / Surge um casal… É um par todo elegância / Maneiras educadas, ar distinto.
Ela, vinte anos. Loira. Um loiro terno. / Mimo e frescura. Graça e gentileza. / Com seu costume, dum xadrez moderno, / Dava-se uns ares de touriste inglesa.
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