A Queimada (Paulo Setúbal)
Paulo Setúbal (?–1937)
O começo
A Queimada! A Queimada! é uma fornalha! / A irara pula, a cascavel chocalha. / CASTRO ALVES.
Agôsto. Pôr de sol. Paisagem silenciosa. / A natureza inteira, aos poucos, adormece. / Triste e vago é o planger da hora vesperal. / De súbito, na mata, eleva-se, medrosa, / Crespa serpe de fogo. Aumenta. Engrossa. Cresce. / E expande-se, num surto, ao seco matagal!
É a queimada! a queimada! É a rubra carbonária / Que vem, de archote em punho, em meio à ramaria, / Desencadeando a fúria o ímpeto das chamas. / Conflagra. Ruge. Sobe aos troncos. E, incendiária, / Vomita fogo, enraiva as flamas, desvaria, / Os caules despenhando e calcinando as ramas!
Nada resiste, nada, ao seu furor sanhudo: / Perobas, guarantãs, jequitibás, paus-d'alho, / Belos troncos anciãos, troncos patriarcais, / Um século a ensombrar o mato verde e rudo, / Um século a florir os seus robustos galhos, / Onde cantaram sempre os ninhos e os casais, / Tudo flameja e rue ao vórtice nefando. / Os animais, fugindo, escondem-se trementes; / Voam, tontas no espaço, as aves com terror; / Um mar de cinza ulula, crepitando; / Estalam os cipós; chocalham as serpentes; / E estouram os bambus rachando com fragor.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.