Rêve d'amour
Paulo Setúbal (?–1937)
O começo
Verão. Canícula horrenda. / Nenhum rumor. Tudo paz. / Dentro, na ampla vivenda, / Dorme o salão da fazenda / Na meia luz em que jaz…
A cena é típica. Vede: / O piano, um quadro a carvão, / O espelho oval na parede, / E peles de onça no chão.
Com ar vetusto, um ar sério, / Largos divãs, um sofá: / Mobília, estilo do Império, / De negro jacarandá.
Cortinas claras, bem alvas, / Dão certo chiste e frescor; / Um lindo vaso, com malvas, / Verdeja no aparador.
E ali, na penumbra amena, / Queda-se o vulto de alguém. / É moça. Esbelta e morena. / Formosa como ninguém!
Vai nela um tédio, uma quebradeira. / Um não-sei-quê de languidez / Que estranha moça! É fazendeira. / Casou-se há menos de um mês.
E ali, com o talhe ondulante, / Vestido de tafetá, / Ela, a morena elegante, / Quase sorri… Que será?
Sonha… Encostada à janela, / Derrama, absorta, a cismar, / Sobre a fronteira aquarela, / Todo um nostálgico olhar.
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