Mocinha
Raul Pompeia (?–1895)
O começo
"Deus me dê forças para ser calmo", pensou Arsênio, sentando-se depois de não sei quantas voltas pelo gabinete. Atordoava-o a terrível certeza. Esteve alguns segundos à cadeira, mãos pendidas como em delíquio, olhar imóvel, magnetizado numa pausa de estupidez pelo brilho fixo, vivo do verniz da escrivaninha, num ângulo que a luz feria.
Por fim bruscamente, como sacudindo o entorpecimento, levantou-se e foi buscar ao guarda-relógio uma pequena chave de ouro que usava na corrente, talismã secreto de namorado e perene intriga dos amigos curiosos.
Sentado novamente, diante da pasta do trabalho, abriu com a chave uma gaveta à esquerda. Estava cheia de cartas, cartas em desordem, algumas abertas, mostrando nas folhas de cores pálidas estampas mínimas de pombos e flores, palavras de ternura que outras folhas truncavam encobrindo, cartas de amor donde evolava-se uma nuvem de perfumes muito tempo guardado, como a saudade dos antigos beijos.
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