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Clarinha das Pedreiras

Raul Pompeia (?–1895)

Contos14 min de leitura12 páginas

O começo

Uma pedreira representa nada menos que esse bichinho vil da terra, como chamava o rei-harpista do Velho Testamento, o átomo inteligente, arcando com a majestosa enormidade do granito. Diante daquela muralha vasta, branca a doer nos olhos, ligeiramente veiada de negro, sonha-se com os dias infernais, em que as erosões vulcânicas rasgavam a virgindade do solo do planeta em formação, encarreirando as serranias, como dentaduras arreganhadas para o céu; e se imagina depois que um pobre diabo de homem, com alguns punhados de pólvora na mão e uma simples agulha de ferro e uma caçamba dágua, sem ouvir os cânticos sangrentos da corneta, sem avistar os acenos eletrizantes das cores de uma bandeira,…

Também o trabalho das pedreiras é feroz; é a luta pela vida, sem figura de retórica. Ai se dá combate ao sol reverberado nas faces alvacentas da rocha talhada; dá-se combate à vertigem que, do fundo erriçado dos precipícios atira uns olhados de Medusa; dá-se combate à pedra, que se defende com as chispas que queimam e as lascas que cegam. A morte está sempre perto: ao fundo dos cortes a pique; na grimpa dos rochedos que se levantam ameaçadores e deixam apenas um ângulo encravado no saibro movediço.

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