O Mal de D. Quixote
Raul Pompeia (?–1895)
O começo
Foi um dia apresentado ao Dr. X…, alienista notável do Rio de Janeiro, um curioso enfermo, vítima de uma singular mania.
Singulares são, em última análise, todas as manias de louco; entretanto, a do caso a que aludo, possuía a notável qualidade de consistir numa cousa que tinha seus ares de teoria, através da qual uma sólida corrente de argumentação arrastava o espírito demente ao mais estranho disparate.
— É preciso extraí-lo, raciocinava o louco… O coração é uma víscera perfeitamente tola… Não passa de um estúpido fole, soprando sangue pelas artérias, em vez de ar… A ciência pode trocá-lo por um aparelho qualquer, que o substitua na função de centro circulatório, evitando, contudo, as regalias morais que goza a tal víscera da minha implicância.
" Ne sutor ultra crepidam , ouvi sempre dizer. Se o coração se contentasse com o papel fisiológico de fole, de bomba de compressão, e lá se conservasse modestamente, no fundo da sua gaiola de costelas, a trabalhar obscuro e honrado, nas suas diástoles e sístoles, eu não exigiria que mo extraísse como um obstáculo que estraga-me o organismo e a vida; mas o intruso esquece que nasceu para fole; mete-se pelos domínios da existência moral, a fazer concorrência com os sisudos miolos, e deita, então, quanta tolice pode fazer o sapateiro de Horácio.
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