Um Cacete
O começo
Uma noite em que o Siqueira saía do Lírico, viu de longe o Rubião, no Largo da Carioca, e quis fugir, mas não teve tempo:
O Rubião avistou-o e correu para ele.
— O Siqueira! Vem cá! Não fujas! Que diabo! Não te vejo há um século!
— Adeus, Rubíão; como vai isso?
— Parece que fugias de mim!
— Eu?! Que lembrança!
— Não, que, para te falar com franqueza, ando muito ressabiado: o outro dia… quando foi?… terça-feira… ora, espera! foi quarta-feira… não!… enfim, terça, ou quarta-feira, o Honorato viu-me e fugiu!
— Fugiu?!
— Como o diabo da cruz! E tomou um bonde que passava! Bem sei porque isso e… estou pobre… não tenho mais vintém.
O Siqueira teve ímpetos de lhe dizer: "Não, não é porque estejas pobre; é porque és muito cacete", mas conteve-se.
— Mas tu, Siqueira, tu, não creio que fujas de mim pelo mesmo motivo..
— Mas eu não fugi!
— Antes assim. De onde vens?
— Do Lírico.
— És um homem feliz.
— Porquê?
— Porque podes ir ao Lírico. Tu sabes como eu sou doido por música; pois bem: desde 1871… não! Ora, espera!.. desde 1872… ou 1873… enfim, há trinta e tantos anos, nunca mais ouvi uma ópera!
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