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Um Cacete

Artur de Azevedo

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O começo

Uma noite em que o Siqueira saía do Lírico, viu de longe o Rubião, no Largo da Carioca, e quis fugir, mas não teve tempo:

O Rubião avistou-o e correu para ele.

— O Siqueira! Vem cá! Não fujas! Que diabo! Não te vejo há um século!

— Adeus, Rubíão; como vai isso?

— Parece que fugias de mim!

— Eu?! Que lembrança!

— Não, que, para te falar com franqueza, ando muito ressabiado: o outro dia… quando foi?… terça-feira… ora, espera! foi quarta-feira… não!… enfim, terça, ou quarta-feira, o Honorato viu-me e fugiu!

— Fugiu?!

— Como o diabo da cruz! E tomou um bonde que passava! Bem sei porque isso e… estou pobre… não tenho mais vintém.

O Siqueira teve ímpetos de lhe dizer: "Não, não é porque estejas pobre; é porque és muito cacete", mas conteve-se.

— Mas tu, Siqueira, tu, não creio que fujas de mim pelo mesmo motivo..

— Mas eu não fugi!

— Antes assim. De onde vens?

— Do Lírico.

— És um homem feliz.

— Porquê?

— Porque podes ir ao Lírico. Tu sabes como eu sou doido por música; pois bem: desde 1871… não! Ora, espera!.. desde 1872… ou 1873… enfim, há trinta e tantos anos, nunca mais ouvi uma ópera!

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