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Ardil

Artur de Azevedo

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O começo

— A que devo o prazer de uma visita a estas horas? perguntou a viscondessa ao entrar na sala, onde havia quinze minutos, a baronesa castigava o tapete com um pé pequenino e admiravelmente calçado.

Ergueu-se a formosa visitante, e suspirou, aliviada pela presença da amiga íntima. Depois dos beijinhos consuetudinários, sentaram-se ambas.

— O visconde ainda dorme?

— Ainda, e não acordará tão cedo: são apenas sete horas.

— Posso falar sem receio?

— Estamos completamente sós.

Houve uma pequena pausa.

— Temos então algum mistério? interrogou a dona da casa, consertando as dobras da sua magnífica bata de rendas brancas. Histórias do coração, aposto?

— Do coração? Não sei. Há quem diga que estas coisas nada tem a ver com ele, mas com a cabeça… Em todo caso, fazem padecer.

— A quem o dizes! — Não durmo há duas noites… há três dias não abro o piano… Amor? - sei lá! Despeito, raiva, talvez…

— Conta-me tudo, disse a viscondessa, enxugando com os lábios duas lágrimas que tremeluziam nos olhos da amiga; conta-me tudo. Os meus trinta e nove outonos estão, como sempre, às ordens das tuas vinte e cinco primaveras. Adivinho que se trata do Bittencourt.

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