Ardil
O começo
— A que devo o prazer de uma visita a estas horas? perguntou a viscondessa ao entrar na sala, onde havia quinze minutos, a baronesa castigava o tapete com um pé pequenino e admiravelmente calçado.
Ergueu-se a formosa visitante, e suspirou, aliviada pela presença da amiga íntima. Depois dos beijinhos consuetudinários, sentaram-se ambas.
— O visconde ainda dorme?
— Ainda, e não acordará tão cedo: são apenas sete horas.
— Posso falar sem receio?
— Estamos completamente sós.
Houve uma pequena pausa.
— Temos então algum mistério? interrogou a dona da casa, consertando as dobras da sua magnífica bata de rendas brancas. Histórias do coração, aposto?
— Do coração? Não sei. Há quem diga que estas coisas nada tem a ver com ele, mas com a cabeça… Em todo caso, fazem padecer.
— A quem o dizes! — Não durmo há duas noites… há três dias não abro o piano… Amor? - sei lá! Despeito, raiva, talvez…
— Conta-me tudo, disse a viscondessa, enxugando com os lábios duas lágrimas que tremeluziam nos olhos da amiga; conta-me tudo. Os meus trinta e nove outonos estão, como sempre, às ordens das tuas vinte e cinco primaveras. Adivinho que se trata do Bittencourt.
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