Cenas da Foz
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — I.
Em 1825, morava na travessa do Caramujo, em S. João da Foz, uma família de Amarante, que viera a banhos, e constava dos seguintes membros:
Pantaleão de Cernache Tello Aboim de Lencastre Maldonado e Sousa Pinto de Penha e Almeida. Sua mulher, D. Amalia Victoria Rui da Nobrega Andrade Vasconcellos Tinoco dos Amaraes. Sua filha, Hermenigilda Clara, com todos os apelidos paternos, e cinco de sua mãe. Duas criadas graves. Uma cozinheira, casada com o lacaio. Um escudeiro preto. Um galego adjunto à cavallariça. Dous cães de lobo; e, finalmente, uma cadelinha atravessada de cão dágua e galga.
Eu, João Junior; que estas cousas ponho em escritura para memoria eterna, morava na rua de Cima de Villa, e da minha janela vi muitas vezes na sua o snr. Pantaleão, homem cor de lagosta cozida, com cabeleira azulada pela ação do tempo, olhos refegados com debrum escarlate, papeira ampla como a dos cretins nos Alpes, e nariz poliédro como uma castanha do Maranhão.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.