Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir. Nº 11 (de 12)
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo
E todavia diante de nós estava um homem, feito à imagem de Deus, segundo rezam as piedosas lendas bíblicas. Estava um irmão nosso, um filho da mesma raça, nascido na mesma pátria, educado na mesma religião de amor e de perdão, e fora a lei e os seus levitas, que o haviam convidado, constrangido ou subornado, a exercer as cruentas e sinistras funções daquela magistratura de sangue.
Venerar e respeitar os autores das monstruosas carnificinas, que se appellidam em frase composta e decorosa «pena de morte» desprezando, ao mesmo tempo, o mandante e forçado executor de uma penalidade absurda e irreparável, pareceu-me sempre um contrasenso abjecto, um preconceito irrisorio, uma aberração torpe e vilã. O pudor deslocado não é virtude: ou é hipocrisia ou imbecilidade.
Achei sempre muito mais racional a doutrina de De Maistre. Divinisava quase o carrasco, elevava-lhe o mister à altura de sacerdócio. Bem haja ele. Pelo menos era logico, consequente e audaz. As situações definidas têm a severidade do raciocínio, a coragem dos dogmas que enunciam, o supremo valor e a imensa lealdade de aceitarem francamente as consequências fatais e necessárias dos seus atos.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.