O Perfume dos Bolos
Raul Pompeia (?–1895)
O começo
Já lá vão seis anos…
Eu via sempre, por volta das dez horas, passar-me pela porta a pequena Berta.
Era a filha mais nova do meu vizinho confeiteiro.
Que linda Berta! Chamavam-na, por graça, a menina azul . Dava razão a isso o saiote azul, que ela trajava sempre, e o corpete de cabeção, azul ainda como a saia, e os olhos cor de céu e os louros cabelos quase brancos, com brilhos metálicos anilados, e, ainda mais, a coloração fina que sombreava-lhe a alvura da face, reflexo não sei se do corpete azul, se do azul luminoso dos olhos.
Perfeitamente encantadora, a criança…
À pequenina da minha rua, um freguês do confeiteiro comia bolos ao almoço.
Berta os levava.
Eu gostava de vê-la passar, trazendo nas mãos, à altura dos ombros, uma pequena bandeja, coberta por um guardanapo alvíssimo. Mais lindos sete anos, nunca vi, nem mais perfumosos bolos.
A menina passava, caminhando rápido; altiva e tímida como uma antílope. Os cabelos cortados rente, deixavam-lhe descoberta a nuca, móvel e branca como um pescoço de cisne. Após ela, ia o apetitoso perfume da massa tostada dos bolos, quentes e fumegantes ainda.
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