A Enchente
Fagundes Varela (?–1875)
O começo
Era alta noite. Caudaloso e tredo / Entre barrancos espumava o rio, / Densos negrumes pelo céu rolavam, / Rugia o vento no palmar sombrio. / Triste, batido pelas águas torvas / Girava o barco na caudal corrente, / Lutava o remador — e ao lado dele / Uma virgem dizia tristemente:
Como ao rijo soprar das ventanias / Os mortos bóiam sobre as águas frias!
E são jovens, bem jovens! na cabana / Dormiam calmos sem pensar na sorte; / A enchente veio, e no agitar infrene / De um sono meigo os conduziu à morte! / A f'licidade é um sonho nebuloso,… / A vida neste mundo é sempre assim, / Do gozo em meio a veladora eterna / Nos arranca da mesa do festim!
Como ao rijo soprar das ventanias / Os mortos bóiam sobre as águas frias!
— Rema, rema, barqueiro; olha — lá em baixo / À luz vermelha do fuzil que passa, / Não ves o vulto de um rochedo escuro / Que a correnteza estrepitando abraça? / — Oh se o vejo, senhora; eu bem o vejo! / Diz o barqueiro com sinistra voz; / Pedi à Virgem que os perigos vela / Que tenha ao menos compaixão de nós!
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