Fragmentos (Noturnas)
Fagundes Varela (?–1875)
O começo
Por ela me despi dos áureos sonhos / Que a flor da mocidade abrilhantavam; / Por ela reneguei meu Deus e crenças, / Por ela abandonei meus pátrios lares, / E nas fráguas do amor e da saudade / Vi minha vida desfazer-se em fumo!
Como o perfume que transpira à noite / Da margem da lagoa — a flor mimosa — / Vai deleitar o viajor que a névoa / Desorienta da campina extensa, / Vinham amenizar — lembranças dela / A sombria tristeza de minh'alma!
De plaga em plaga como o hebreu maldito / Refugiei-me em vão, buscando dalma / Expulsar o pesar que me roía! / Mendiguei um alívio ao céu de Itália; / Aos cantos do barqueiro errei à noite / — Nas ondas perfumadas de Sorrento; — / Adormeci na encosta do Vesúvio, / E visitei as lúcidas paragens / Onde Laura e Petrarca suspiraram. / Mas era embalde!… nem o céu brilhante, / Nem o meigo sorriso, — o olhar de fogo
Da bela Italiana, nem os cantos, / Nem os festins ruidosos de Veneza, / Sanar puderam de meu seio a mágoa, / E a dor pungente que ia fundo nalma!
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