A Cidade
Fagundes Varela (?–1875)
O começo
A cidade ali está com seus enganos, / seu cortejo de vícios e traições, / seus vastos templos, seus bazares amplos, / seus ricos paços, seus bordéis salões.
A cidade ali está: sobre seus tetos / paira dos arsenais o fumo espesso, / rolam nas ruas da vaidade os coches / e ri-se o crime à sombra do progresso.
A cidade ali está: sob os alpendres / dorme o mendigo ao sol do meio-dia, / chora a viúva em úmido tugúrio, / canta na catedral a hipocrisia.
A cidade ali está: com ela o erro, / a perfídia, a mentira, a desventura… / Como é suave o aroma das florestas! / Como é doce das serras a frescura!
A cidade ali está: cada passante / que se envolve das turbas no bulício / tem a maldade sobre a fronte escrita, / tem na língua o veneno e na alma o vício.
Não, não é na cidade que se formam / os fortes corações, as crenças grandes, / como também nos charcos das planícies / não é que gera-se o condor dos Andes!
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