O Escravo (Fagundes Varela)
Fagundes Varela (?–1875)
O começo
Dorme! Bendito o arcanjo tenebroso / cujo dedo imortal / gravou-te sobre a testa bronzeada / o sigilo fatal! / Dorme! Se a terra devorou sedenta / de teu rosto o suor, / mãe compassiva agora te agasalha / com zelo e com amor.
Ninguém te disse o adeus da despedida, / ninguém por ti chorou! / Embora! A humanidade em teu sudário / os olhos enxugou! / A verdade luziu por um momento / de teus irmãos à grei: / Se vivo foste escravo, és morto… livre / pela suprema lei!
Tu suspiraste como o hebreu cativo / saudoso do Jordão, / pesado achaste o ferro da revolta, / não o quiseste, não! / Lançaste-o sobre a terra inconsciente / de teu próprio poder! / Contra o direito, contra a natureza, / preferiste morrer!
Do augusto condenado as leis são santas, / são leis porém de amor: / Por amor de ti mesmo e dos mais homens / preciso era o valor… / Não o tiveste! Os ferros e os açoites / mataram-te a razão! / Dobrado cativeiro! A teus algozes / dobrada punição!
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.