A Carochinha
Teófilo Braga (1843–1924)
O começo
Era uma vez / A Carochinha, / Achou cinco réis / Ao varrer da cozinha. / A Carochinha / Poz-se à janela / A ver quem queria / Casar com ela:
«Quem quer casar / Com a Carochinha, / Que ela é formosa / E bonitinha?
Passou um porco: / — Quero-vos eu! / «Que comes tu? / — Do que Deus deu. / «Fó, fó, ó porco, / Eu não te quero; / Melhor marido / Que tu espero.
«Quem quer casar / Com a Carochinha, / Que ela é formosa / E bonitinha?
Passou um cão: / — Quero-vos eu! / «Que comes tu? / — Do que Deus Deu. / «Fó, fó, ó cão, / Eu não te quero; / Melhor marido / Que tu espero.
Vão passando o boi, o gato e outros animais, e ela sempre:
Quem quer casar / Com a Carochinha, / Que ela é formosa / E perfeitinha?
Passou um rato: / — Quero-vos eu! / «E tu que comes? / — O bom é meu. / «A ti, ó rato, / A ti eu quero: / Melhor marido / Não no espero.
Casaram-se, e ele chamava-se o João Ratão.
Domingo à missa / Ambinhos vão; / Feijões ao lume / No caldeirão. / Viu-se a Carochinha / Sem leque na mão: / «Carochinha sem leque! / Que não dirão? / Vae-me por ele, / Meu João Ratão.
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