O Sá
O começo
<põem> I Fora um boêmio outrora, E, para atenuar o seu passado Vadio e dissoluto, Costumava a dizer: - O meu tributo Paguei - Era outro agora: Tranquilo e sossegado, Muito bem comportado, Tal qual Pêro Botelho Que se faz ermitão depois de velho, Ou como certas cortesãs que, ao cabo De uma vida de gozos e loucuras, Julgando assim ficar menos impuras, Voltam a Deus o que não quis o diabo.
Ele, entretanto, ainda não era idoso; Da montanha da vida não chegara Ao cume pavoroso: Cinquenta anos não tinha, e - coisa rara! - Não obstante a existência que levara, Estava já grisalho, mas não tinha Esses pés de galinha A que no mundo pouca gente escapa, E que o aspecto dão à nossa cara De castanha ou de mapa. É que a pele, que estica, Livre de sulcos mais ou menos fica, E o Sá (era esse o nome Do herói dessa novela) Se havia sido em moço um magricela E padecido fome, Teve, afinal, sossego Quando, volvidos quase os quarenta anos, Num suculento emprego, Fez boas digestões, dormiu bons sonos, E entrou, como entra um pássaro, na muda. Tanto corpo deitou, engordou tanto, Que era um…
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