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O Retrato de Dorian Gray

Oscar Wilde (?–1900)

Romance2 h de leitura106 páginas

O começo — I

Estava o estúdio impregnado do forte cheiro das rosas. Quando, por entre as árvores do jardim, passava a leve viração, entrava pela porta aberta o odor dos lilases, de mistura com o perfume mais sutil das madressilvas.

De um canto do divã entre almofadas persas, onde habitualmente se estirava, fumando inúmeros cigarros, lorde Henry Wotton percebia perfeitamente o brilho das doces flores cor de mel, cobrindo um ébano de galhos trementes, como cansados de suportar o peso de tão fascinante esplendor. De vez em quando, sombras fantásticas de pássaros desgarrados passavam além das translúcidas cortinas abertas da larga janela, produzindo como que um efeito japonês momentâneo, fazendo-o pensar na figura de jade pálido desses pintores de Tóquio, que, por meio de uma arte necessariamente imóvel, tentam produzir a sensação da rapidez e do movimento.

O zumbido monótono das abelhas, por entre altas ervas não ceifadas ou revoando em torno de empoados e dourados ramalhetes de um isolado arbusto de madressilva, tornava ainda mais opressiva essa grande calma. O surdo ruído de Londres lembrava a nota ressoante de um órgão afastado.

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