
Amor de Salvação
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — I
Estava claro o céu, tépido o ar, e as bouças e montados floridos. O mês era o de Dezembro, de 1863, em véspera do Natal.
A gente das cidades pergunta-me em que país do mundo florescem, em Dezembro, bouças e montados.
Respondo que é em Portugal, no perpetuo jardim do mundo, no Minho, onde os inventores de deuses teriam ideado as suas theogonias, se não existisse a Grecia. No Minho, ao menos, se buscariam águas lympidas para Castalias e Hipocrenes. No Minho, a Cythéra para a mãe dos amores. Nos arvoredos desta região de sonhos, de [10] poemas, e rumores de conversarem espíritos, é que os satyros, as dryades e os sylvanos sairiam a cardumes dos troncos e regatos: que tudo aqui parece estar dizendo que a natureza tem segredos defesos ao vulgo, e como a entreabrirem-se à fantasia de poetas.
Mas que flores… quer o leitor saber que flores vestem os calvos e denegridos serros do Minho, em Portugal. São flores a festões, cachos de corolas amarelas, viçosas, e aveludadas como as dos arbustos cultivados em jardins: é a florescência dos tojaes, plantas repulsivas por seus espinhos, alegres de sua perpetua verdura, únicas a enfeitarem a terra quando a restante natureza vegetal amarellece, definha, e morre. E desse privilegio como que o agreste arbusto se está gozando soberbamente; pois que vos amostra as suas pinhas de flores, e com os inflexíveis espinhos vos defende o despojá-lo delas.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.