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O Meu Criado João

Artur de Azevedo

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O começo

No dia em que ele me apareceu, recomendado por uma senhora a quem me queixara da falta de um bom criado, fiz-lhe as perguntas usuais:

— Como se chama?

— João.

— É português?

— Não, senhor; sou da Ilha da Madeira.

— Ora esta! Se é da Madeira, é português!

— Não, senhor: sou ilhéu.

— Bom; quanto quer ganhar por mês?

— Contento-me com que o patrão me der, contanto que não seja menos de cinquenta mil-réis, casa e comida.

Fiquei com o João.

Nesse mesmo dia encontrei-o a lavar as mãos com o meu sabonete fino, que eu reservava, naturalmente, para o meu uso exclusivo.

— Que é isso? Você serve-se do meu sabonete?

— Não, senhor, não me estou servindo dele; estou a lavá-lo, porque estava sujo de espuma.

A minha vontade foi mandá-lo embora, mas não o fiz.

Não o fiz e, dali a três dias, entrando em casa, encontrei em cacos, na cesta dos papéis inúteis, uma estatueta da Vênus de Milo, que era de gesso, pouco valia, mas eu estimava muito por ser uma reprodução muito fiel do famoso mármore do Louvre.

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