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Tílburi de Praça

Raul Pompeia (?–1895)

Contos6 min de leitura5 páginas

O começo

Não encontraram por aí minha mulher?… É original. Desde que me casei… Eu por uma porta, ela por outra. Só nos encontramos uma vez frente a frente com vontade. Eu entrava por um lado, ela entrava por outro…

A nossa vida de casados é uma verdadeira questão aberta. Entrar e sair é tudo a mesma cousa. Acontece, porém, que ela está sempre fora e eu nunca estou dentro.

Já me disseram: Cuidado, João, tua mulher tem amantes… Eu estou de olho… Não há perigo. Olhem, aqui em casa eles não me passam a perna…

Na rua eu a espio… Onde ela entra entro eu atrás.

Casei, todos sabem, não foi por dinheiro: tenho os meus prédios. Casei por paixão, ou antes, por compaixão. Vi-a no seu véu tristezinho de viúva, com uns olhos pretos por baixo, que não tinham nada de luto, valha a verdade. Olhou para mim docemente. Eu tenho os meus prédios… Lembrei-me deles com orgulho, diante daquela formosíssima soledade. Comecei a gostar dela. Um homem depois de cinquenta não namora; os dedos estão perros para o bandolim das serenatas, o luar dos balcões tem reumatismos. Desde que há meia dúzia de prédios, é logo casamento…

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