
Anos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — DISCURSO PROEMIAL.
Altissima é a missão do escritor, e a do romancista principalmente. O mestre Ignacio da cartilha velha, amoldurada às necessidades do século, é o romancista. Mal hajam os sacerdotes das letras derrancadas que vendem peçonha em lindos cristais, e desfloram as almas em luxuriante florescência da sua primavera. O mau romance tem afistulado as entranhas deste país. Não há fibra direita no coração da mulher que bebeu a morte, e—pior que a morte—algumas dezenas de gallicismos no que por aí se escreve e copia. O anjo da inocência foge de certos livros, como os editores de certos autores. A candura virginal de uma menina de quinze anos é a cousa mais equivoca deste mundo, se a menina leu cousa em…
Para cumulo de infortúnio, Portugal é um país onde se está lendo muito.
Acontece aos estomagos famintos, quando se lhes depara [8] alimento bom ou mau, assimilarem-n'o com tamanha sofreguidão, que o encruamento do bôlo, e o marasmo são inevitáveis. Assim e por igual teor, quando os Lucullos e Apicios das letras expõem à voracidade publica as suas iguarias estragadas, a fome de aprender a vida nos romances locupleta-se com tamanha intemperança, que o resultado e as dispepsías espirituais, tormento de angústias vomitivas, que fazem descer o coração ao lugar do estomago, e subir o estomago ao lugar do coração.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.