
Carlota Angela
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — I
Se a natureza formou uma bela criatura, não pode a fortuna precipitá-la num incêndio?
Shakspeare. ( Como vós o amaes. )
Cette douce ivresse de l'âme devait être troublée.
Balzac. ( Albert Savarus. )
Norberto de Meirelles e sua mulher D. Rosalia Sampayo, ricos proprietários, moradores, em 1806, na rua das Taipas, da cidade do Porto, viam crescer prodigiosamente os seus cabedais, e, com eles, uma filha única, tão encantadora para os pais como a riqueza com que a iam enfeitando para seduzir o mais medrado capitalista da terra.
Tolerem-me a singeleza com que se começa a narrativa.
Eu tinha à minha disposição quatro exordios bonitos, que escrevi em quatro tiras, e rejeitei com desdém.
Era assim o primeiro:
«Diz-me tu, amor, que magos filtros insinuaste no coração da virgem de olhos negros, que lêda e melancólica, lagrimosa e risonha, te está enamorando na lua, donde lhe sorris em noites calmas de estio, na floresta, onde lhe cicias palavras nunca ouvidas, na fonte, onde lhe murmuras a tua linguagem do céu? Que ambrozia inebriante deste à doudinha que, tão requestada e alheada de brinquedos pueris, se vai, só e destemida, a buscar-te, [6] por entre mirtos e rosaes, perseguindo-te como lasciva borboleta de flor em flor, sobre alfombras de verdura, por onde volitam lúcidos phalenos?»
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.