Decotes de Quinze Anos
Raul Pompeia (?–1895)
O começo
Curiosa coincidência, pensava Otília, debruçando-se à janela com a carta que lhe escrevera a prima, curiosa coincidência, aquela carta e aquela situação!
Do outro lado da rua em frente, erguia-se em grande prédio de dois andares. Na última janela do segundo andar, à direita, lá estava ele, o impertinente vizinho, que não lhe tirava os olhos de cima, uns vivos olhos vorazes de meter medo.
Com ela, com a sisuda Otília aquele rapaz perdia o seu tempo.
Mas era interessante a coincidência… Ela e aquele sujeitinho ali… e o assunto da carta, da terrível carta!…
Sob a fuzilada de olhares que lhe chegavam da última janela à direita do 2º andar fronteiro, a mocinha tornou a ler.
"… Nada conheces, na tua idade de inexperiência e de surpresas. / / Sou do número das trintonas de Balzac, um escritor que ainda não leste, entendido nos mistérios da alma feminina, sou do número das educadas do amor, mulheres de curso completo na ciência do coração. / / Mas já tive a tua idade, os deliciosos quatorze ou quinze anos de criança, quando o sexo nos revela apenas pela prevenção desconfiada do pudor, essa tolice adorável do sangue. / / Amanhã, muito breve, saberás o que valem as flores de fogo que às vezes te abrasam o lindo rosto. Então na hora do amor, compreenderás os vagos temores, indefinidos sustos que te assaltam, como um rebate, de extraordinárias cousas. O coração…
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.