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Rapto Original

Visconde de Taunay

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O começo — I

Namoravam-se a valer, de uns meses atrás; a vizinhança sabia de tudo, acompanhava curiosa, acesa, as peripécias do derriço e tomava bons regabofes.

Ela, muito nevrotica, atirada a romantismos, exaltada, amiga de leituras violentas, fin de siécle , tocando piano de modo quase notável e gostando de despertar, alta noute, o bairro com a valentia dos acordes que deferia, nem bonita, nem feia, com esse viço da primeira mocidade que os italianos espirituosamente appelidam la beltá dell’ásino , vivendo uma atmosfera de perfumes entontencedores, exóticos, acre, a sofrer, quase todos os dias, de enxaquecas, que a levavam a abusar da antypirina e lhe davam desejos ardentes de se morphinisar, para cair em longos torpôres e fruir sonhos paradisiacos.

Filha única de antigo negociante, retirado rico do comercio, o comendador Jacintho Candelaria fazia as suas quatro mil vontades, criada, como fora, sem mãe, e no meio de numerosas mucamas, que beliscava forte, nos dias de mau humor e mais nervosismo. Num só ponto, contudo, e ponto capital, desenvolvia o pai todas as energias de português teimoso e embezerrado. Significára à filha, desde em menina, e incessantemente lh’o repetia, que só ele é que havia de casá-la.Tivesse paciência e sobretudo confiança, pois lhe daria para noivo, não nenhum velho ou qualquer figura estapafurdia, porém sim rapaz novo, sacudido, de boa presença, latagão de peso e medida, mas que oferecesse, depois de…

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