Inocência (Visconde de Taunay)
O começo — I
Todos vós percebeis o trabalho da natureza, cuja ação é eterna.
(Goethe, Fausto)
Então com passo tranquilo metia-me eu por algum recanto da floresta, algum lugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem, me denunciasse a servidão e o domínio; asilo em que pudesse crer ter primeiro entrado, onde nenhum importuno viesse interpor-se entre mim e a natureza.
(J. J. Rousseau, O Encanto da Solidão)
A estrada que da vila de Sant’Anna do Paranahyba leva ao ponto abandonado de Camapuan corta uma extensa e mal-povoada zona da parte sul-oriental da vastíssima província de Mato-Grosso. Desde aquela vila, que assenta quase no vértice do ângulo em que confinam os territórios de S. Paulo, Minas Geraes, Goyaz e Mato Grosso, até o rio Sucuriú, afluente do majestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de léguas, anda-se comodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas às outras, rareiam, porém, depois as casas, mais e mais, caminham-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao retiro de João Pereira, guarda avançada daquelas solidões, homem…
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