Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir. Nº 04 (de 12)
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo
«Foi: correram horas, e não voltou.
«Começaram e cresceram cuidados: mandou-se à busca por todas as partes: passou o serão, passou a noite, e passaram também dias, sem que a tornassem a ver, nem a ouvir dela nova alguma.
«Nessa tarde alguém se lembra de ter notado uma sege parada debaixo da arcada do paço. E um morador da casa acrescenta que, perto da noite, achando-se no caes do Sodré, vira chegar uma sege à porta de uma hospedaria, e um homem de chapéu branco apear uma menina, que lhe pareceu ela.
«Devolvidos quatro mortais dias, chega no domingo um galego com uma carta para a consternada tia:--entrega-lh'a em mão própria, e ajunta, havê-la recebido de uma menina mui linda, que lavada em lagrimas e afogada em soluços lhe recommendára fosse levá-la correndo, [19] e lhe trouxesse sinal de ter sido recebida. O conteúdo desta carta ninguém o soube, mas parte dele facilmente se pode presumir.--Ás nove horas dessa mesma noite viram-se sair pela portaria dous vultos rebuçados, que por mais que a porteira os interrogasse, partiram sem dar resposta. À hora e meia da noite os mesmos dous vultos vieram bater à porta, trazendo entre si amparado e quase em braços um terceiro, que ninguém…
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.