Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir. Nº 03 (de 12)
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — (Á ACTUALIDADE )
Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assinante do seu papel, que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assinei.
Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do folhetinista.
Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não diga que sou incivil).
Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em cima, no noticiário, está a porção humana do aborto; em baixo, no folhetim, está (com a devida cortesia) a porção bestial do mesmo centauro.
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Mas há lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde está o homem, nem onde está (com a divida venia) a besta.
O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por conveniências da composição e da variedade da forma, lhe não chame sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em obsequio à urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva Pinto.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.