Luiz de Camões: Notas Biográficas: Prefacio da Sétima Edição do Camões de Garrett
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — I
O protagonista do sempre formoso poema de Almeida-Garrett é um Luiz de Camões romântico, remodelado na fantasia melancólica de um grande poeta exilado, amoroso, nostálgico. A ideal tradição romanesca impediu, com as suas névoas irisadas de fulgores poéticos, passante de duzentos e cinquenta anos, que o amador de Natercia, [8] o trovador guerreiro, fosse aferido no estalão comum dos bardos que immortalisaram, a frio e com um grande sossego de metrificação, o seu amor, a fatalidade do seu destino em centurias de sonetos. Garrett fez uma apoteose ao gênio, e a si se ungiu ao mesmo tempo príncipe reinante na dinastia dos poetas portugueses, criando aquela incomparável maravilha literária.…
Camões ressurgiu em pleno meio-dia do romantismo do século XIX, não porque escrevêra os Lusiadas, mas porque padecera de uns amores funestissimos. O século XVIII citava-o apenas nos livros didáticos e nas academias eruditas, como [9] exemplar clássico em epítetos e figuras da mais esmerada retórica. Tinha caído em mãos esterilisadoras dos gramáticos que desbotam sapientissimamente todas as flores que tocam, apanham as borboletas, prégam-as para as classificarem mortas, e abrem lista de hyperboles e metáforas para tudo que transcende a legislatura codificada de Horacio e Aristoteles.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.