Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir. Nº 02 (de 12)
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — I
A casa grande das quinze janelas branqueja no espinhaço do monte.
As janelas fecharam-se há seis meses, ao mesmo tempo que duas sepulturas se abriram.
A sepultura do Africano que chegava ao cemitério, quando a filha expirava; e a sepultura de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos funerais do pai.
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Ao homem, que morreu naquela casa triste, chamavam o Africano .
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Estou-a vendo daqui.
As vidraças reberveram o sol poente.
Eu, há hoje dez anos, vi abrir os alicerces daquela casa.
Lidavam operários a centenares.
Entre os alveneis estava um sujeito, na pujança dos anos, magro, macilento e tostado pelo sol da Africa.
Disseram-me que era homem muito rico, e viera do cabo do mundo, e se chamava o «Duque» por apelido, e o Africano por alcunha.
Avisinhei-me dele com o semblante risonho de cortesias para lhe perguntar como ia, em monte assim agro e ermo, fabricar edifício tão grandemente cimentado.
Respondeu que tinha em Benguela uma filha, com quem andara viajando na Suissa. E que a sua Deolinda, estanciando nas empinadas serras de S. Gothard, lhe dissera que seria feliz se morasse no topo de uma montanha, em casa imitante de outra onde pernoitára, e donde vira levantar-se o sol do seu leito de neve.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.