Livros › Raul Pompeia › Olhos (Raul Pompeia)

Capa de Olhos (Raul Pompeia)

Olhos (Raul Pompeia)

Raul Pompeia (?–1895)

Contos4 min de leitura4 páginas

O começo

Era um comprido velho, magro, de longos braços, pendentes como esses ramos dos pinheiros, que as gravuras representam debruçados às escarpas, sobre catadupas, ou sobre abismos. Rigorosamente trajado de preto, cismador e melancólico, produzia-me o mesmo efeito das lutuosas árvores das paisagens setentrionais.

Ao lado dele, em violento contraste de cor, vestida de branco, numa toilette refolhada de musselina, com um laço negro, a prender os cabelos, caminhava uma menina.

O velho acariciava a criança, sob um olhar de ternura; a menina com a cabeça muito voltada, porque o velho era alto, sorria para ele e segurava-lhe a grande mão descarnada nas suas pequeninas, alisando-lhe com amor os dedos, delicadamente.

Aproximaram-se.

O velho, apesar dos cabelos brancos, não o era tanto, de perto, como me parecera, à distância. Dir-se-ia encanecido pelas neves de um inverno precoce, adiantado pelos dissabores da vida; a que resistira, entretanto, a relativa frescura da fisionomia.

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Raul Pompeia