Folhas Caídas, Apanhadas na Lama por um Antigo Juiz das Almas de Campanhan
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — EU.
Saibam todos quantos virem / Este publico instrumento, / Que surgiu mais um poeta / Nos aloques do talento. / Não pertenço à mocidade, / Que fechou sem caridade / Da velhice a pobre tumba. / Não sei palavras destouro, / Nem descanto em lira douro: / Minha lira é um zabumba.
Eu, sou eu. Juiz das Almas, / Nos bons tempos, que lá vão, / Conheci que tinha uma / Como poucas almas são… / Campanhan! terra dos saveis! / [4] Que doçuras inefáveis / Tens nos teus prados amenos! / Ai! Maria da Cancella!… / Cada vez que falo nela, / Sou Petrarcha… em fralda, ao menos!
Dai logar à catarata / De uma lágrima que rola / Pelas faces, como orvalho / A aljofrar uma papôla, / Respeitai a desynth'ria / Desta enferma poesia, / Que resiste à Revalenta! / Braz Tisana , esse que diga, / Em que estado anda a barriga / Da Musa, nos seus outenta!
Deixai que um velho recorde / Aureos sonhos infantis!.. / Campanhan, mansão das fadas / Onde estão tuas houris? / Ledas brisas que brincaveis / Entre as pestanas dos saveis, / Lindos saveis de coral! / Onde estais, em que paues / Murmuraes, auras tafues, / Vosso hino angelical! / [5] / Raios pálidos da lua / Alta noute, em céu danil, / Já não são os que argentavam / Estes lagos de esmeril! / Nem é este o pulcro savel / Que me deu sorriso afável / Dentre os verdes salgueiraes! / Nem aqui meu peito anceia / Os carinhos da lampreia / (E outras asneiras que tais).
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.