
Cenas Contemporâneas
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — I.
Os meus amigos, de certo, não sabem o que é caçar coelhos na neve?
Não admira.
Imaginem-se em qualquer aldeia, nas vizinhanças do Marão. Olhem em redor de si, e contemplem o quadro que os viajantes na Suissa lhes descrevem todos os dias, suposto que nunca sahissem da sua terra.
A primeira impressão que recebem é a do assombro. Léguas em roda, nem na terra nem no céu, se descobre uma crista de rochedo, a frança de uma arvore, a dobra de uma nuvem, que não seja branca, alvissima, desde um horizonte a outro horizonte.
E, depois, há aí em toda essa natureza amortalhada um silencio fúnebre. Não cantam as aves, não balam os cordeiros, não silva o buzio de pegureiro, não soam nas quebradas as campainhas da arreata de machos.
Se ouvis um rugido assobiado ao qual respondem outros, não vos afasteis para longe da casa donde presenceaes, com o coração confrangido, esta cena. É uma alcatéa de lobos, que descem famintos da serra, e [6] serão capazes de vos irem buscar à cozinha, onde naturalmente tiritaes de frio, sentados ao pé do tóro de carvalho.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.