
Lagrimas Abençoadas
Camilo Castelo Branco (1825–1890)
O começo — I
Disseram muitos dos que estavam em redor de uma criancinha, na pia do batismo, que na face dela havia uma luz misteriosa, como a projeção de um cirio invisível, que, naquele instante solene, allumiasse, nas mãos de um anjo, as cerimonias do sacramento augusto. Visão de boas almas.
Era uma menina de nove dias.
Sua madrinha era Nossa Senhora da Conceição, fulgurante de mil lumes, no seu docel de seda e prata, com as mãos cruzadas sobre o seio, com os olhos extáticos no céu, como seguindo o trilho de estrelas por onde, aos pés do Eterno, voejava o anjo da ANNUNCIAÇÃO.
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Seu padrinho era um duque, vestido de ouro, com as suas insignias de general em chefe, com o seu tesouro de condecorações guerreiras a cobrirem-lhe o peito, onde pulsava sangue de reis, que não valia mais, por isso, em coração de homem.
Seu pai era um coronel, fidalgo dos que primeiro o foram nesta terra, valente como o primeiro e o ultimo da sua linhagem, e honrado como aquele de seus avós, que morrera desterrado, em Tanger, por não denunciar o que lhe fora amigo desleal, embora traidor ao rei D. João II.
Camilo Castelo Branco (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.