Correspondências Íntimas II
Raul Pompeia (?–1895)
O começo
Bom Amigo F.
Vai causar-te uma impressão estranha esta minha carta. Cheira a vinho e a sepulcro. Perdoa, caro amigo. Tenho diante de mim algumas garrafas, e aí na sala o cadáver de minha Ercínia…
Tu vias aquela criança viva, inteligente, engraçada, a brincar-me nos joelhos, linda como uma nuvem de aurora, puxando-me as barbas e beijando-me as pálpebras, fitando os meus sorrisos com os grandes olhos ingênuos e negros, sempre acariciadora, sempre boazinha…
Era a lembrança da minha chorada Maria, e o meu consolo…
Pois agora a fatalidade, o diabo, não sei quem… assassina-me cruelmente esse derradeiro vestígio da minha breve felicidade!
Calcula, meu amigo, que desespero!…
E deixa-me beber!…
O vinho é um grande lenitivo. Afoga as dores no esquecimento. Pode-se ver um cancã no cemitério, olhando através de um campo. Com certeza não conheces esta verdade.
É que não precisas… És um homem feliz; mas eu não sou mais que um miserável escolhido pela má fortuna para seu joguete… Deixa-me beber!…
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