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Contos em Verso

Artur de Azevedo

Contos2 h 10 de leitura117 páginas

O começo — Contos brasileiros/A escrava

A ESCRAVA / Eu nasci lá na fazenda / De uma negra e do feitor. / Vim pequena para a corte, / Trazida por meu senhor, / E eu era em casa guardada / Como joia de valor.

Minha pobre mãe — coitada! / Deixei-a ficar na roça; / Tinha saudades da filha, / Mas, com medo de uma coça, / As lagrimas escondia / Na solitária palhoça.

Foi na palhoça que um dia / Meu pai irritado entrou, / E lhe bateu com o chicote… / Que ela dormisse julgou, / Desgraçada mãe, que mesmo / Depois de morta apanhou!

Eu não fui criada a esmo, / Comquanto fosse uma escrava; / Muitas vezes sinhásinha / Junto de si me assentava, / E me ensinava leitura / E a rabiscar me ensinava.

Era, porém, na costura / Que eu mostrava mais primor; / Vestidos fazia a ponto / De muita gente supor / Que eram obra da madama / Lá da rua do Ouvidor.

Não havia outra mucama / Com tão raros predicados! / Como eu engommava as rendas, / As prégas e os apanhados, / Do ferro levando o bico / Aos refolhos dos babados!

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