
Era uma Vez...
Júlia Lopes de Almeida (1862–1934)
O começo — ERA UMA VEZ...
Quando a Princesa Edeltrudes nasceu, era tão pequenina, tão pequenina, que poderia dormir à vontade dentro de um dos sapatinhos da Rainha sua mãe. Mas o berço em que a meteram era muito lindo, todo de fios de ouro entrelaçados e grinaldinhas de folhagens e de rosas, simuladas por esmeraldas o rubins.
Com medo de que a sua fragilidade a matasse, bafejaram-na, amimaram-na, rodearam-na dos mais extremados carinhos…
E a Princesinha resistiu, e foi crescendo cheia de vontades imperiosas.
Era ainda muito tenrinha quando um dia a mãe, ao embala-la com as suas próprias mãos cor de cera, deixou cair a cabeça sobre o peito e adormeceu… E assim como o berço deixou de oscilar, parou no peito da Rainha o coração.
Houve gritos, lamentos, correrias, mas a criança no meio das suas rendas não percebeu cousa alguma e nem um estremecimento sacudiu a carnação rosada do seu corpinho rechonchudo.
E desde então o Rei viveu com medo de que à filha acontecesse o mesmo que acontecera à esposa, e jurou por isso não lhe dizer jamais na vida um—não.
Júlia Lopes de Almeida (autor) morreu em 1934; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2005.