As Árvores (Júlia Lopes de Almeida)
Júlia Lopes de Almeida (1862–1934)
O começo
Quando, na margem lodosa do Tibre, os primeiros romanos plantaram a figueira, árvore da flor saborosa e em cujas veias o leite escorre compacto e doce, prestavam culto à lenda da sua origem, fazendo da planta como que o símbolo da pátria. Naquela terra da febre, sem águas puras, a árvore sorveu do solo a ardência doentia que transmitiu depois, já purificada, à polpa sangüínea da sua flor.
As abelhas que procuram de preferencia o mel do figo ao de outro qualquer fruto ou flor, enxamearam depressa por entre as largas folhas escuras da árvore, em que legiões de insetos invisíveis punham um tom luminoso de vida e deram aos romanos, trabalhadores e simples, favos deliciosos.
A cheirosa figueira teve, com justiça, o seu lugar sagrado no Palatino.
Naqueles tempos rudes, e em outros ainda de mais velha antiguidade, o respeito intuitivo pelas árvores era tamanho, que os homens as criam representantes de divindades. O carvalho, o loureiro, a palmeira e o mirto, eram invólucros de deuses. Olhando para a coroa tufosa das tílias, sorvendo-lhe o aroma das pálidas umbelas esverdeadas, o grego ouvia suaves promessas de Venus, alma dessa planta, tapetando-lhe de veludo as estradas da vida.
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