Cartas
Júlia Lopes de Almeida (1862–1934)
O começo
"Minha querida.
Escrevo-te à noite, com a minha vaidade de dona de casa completamente satisfeita. Vou dizer-te por quê.
Há tempos, entre as minhas fantasias de menagère figurou a de mandar fazer um chemin de table de arame, que eu cobriria de flores naturais para a minha mesa de jantar. Ideada a história, fez-se o desenho, e no dia seguinte atirei-me para a Casa Flora, a indagar se aquilo seria coisa de fácil execução.
Não era; o dono da loja mesmo louvou a ideia, mas duvidou do êxito. Lá deixei o meu desenho e voltei desconsolada. Passadas algumas semanas, quando eu já nem me lembrava de ter pensado um dia num chemin de table de arame, eis que ele me entrou pela porta a dentro. Era tal e qual um esqueleto, bem descarnado e extravagante. Franziu-me a boca o clássico muxoxo da decepção. Senhor! como é fácil à gente imaginar coisas bonitas, mas como é difícil executá-las! Não valerá muito mais deixá-las para sempre em sonho? Sim, mais valeria; mas, já agora, seria preciso cobrir aquela nudez fria, cinzenta e desenxabida do arame, todo contorcido em voltas e reviravoltas, e disfarçá-la sob um delicado manto…
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