
Às Mulheres Portuguesas
Ana de Castro Osório (1872–1935)
O começo — Prologo
Na incerteza pelo futuro, característica muito acentuada do atual momento histórico, não há ninguém, por mais ferozmente que se ensimesme ou por mais alto que se alheie em sonhos e ficções, que se não surprehenda, um dia, meditando, transido de duvidas, nalgum dos múltiplos problemas que agitam a alma moderna.
São tantos e tão variados, tão dolorosos por vezes, recordam tanta lágrima, evocam tanta dor sofrida pela mísera humanidade—que em vão lhe quer fugir e se debate e grita de desespero, ou ri de inconsciente gozo, conforme é alevantada aos ares em triumfo ou mergulhada na indiferente desgraça—que o nosso espirito se detem e pergunta, no augusto silencio da própria consciência—se vale a pena existir num mundo assim?!
Todos os sinceros têm formulado esta interrogação: uns, fortificados pelo pensamento, no desejo de remediar o mal, concebem a esperança de trazer, embora com o sacrifício próprio, alguma melhoria à sociedade; outros desanimam, a mesma dor os mata ou anula para o trabalho paciente do futuro.
Ana de Castro Osório (autor) morreu em 1935; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2006.