
Quatro Novelas
Ana de Castro Osório (1872–1935)
O começo — A VINHA
Luis saíra para o colégio ainda criança e de lá para as escolas superiores; assim os anos tinham decorrido sem que nunca mais visitasse a terra natal.
Dez anos, dez longos anos se tinham passado, e só agora voltava, como um foragido ou como um ladrão, que enlouquecido de saudades arrisca a vida e a liberdade para rever a terra que primeiro conheceu e é sempre para o homem a mais querida, a mais bela, a melhor de todas.
E—pobre Luis!—era na verdade como um foragido que voltava, escondendo-se para que o não vissem, envergonhado dessa fraqueza sentimental que já não ia nada bem com os seus galões de guarda-marinha e o seu bonito bigode a ensombrar-lhe o lábio superior.
E voltava amesquinhado aos seus próprios olhos, ele que se julgava tão importante pelos estudos transcendentes, que seguira com certo brilho, porque só agora compreendia o sacrifício de cada momento, a luta de cada hora, o verdadeiro heroísmo obscuro e respeitável que a sua educação representava na vida família.
Ana de Castro Osório (autor) morreu em 1935; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2006.