Ambições
Ana de Castro Osório (1872–1935)
O começo — I
É na botica de uma vila de província, velho burgo acastellado, orgulhoso dos seus forais e brasões como da nobreza que em tempos dali saiu e se espalhou pelo reino, deixando fortes raízes na terra, que ainda exporta fidalgos como podia exportar qualquer mercadoria.
Despoetizada pela moda que tudo confunde e baralha e pela turba de veraneadores que a procuram para refazerem os pulmões e os nervos, a que os invernos de Lisboa esgotam a energia, é ainda assim das mais típicas e formosas da província.
Afora dos muros, os campos estendem-se verdes — do verde escuro dos pinheiros, do verde cinzento das oliveiras, do verde brilhante dos castanheiros… de longe em longe, manchas risonhas de pomares, salpicadas de casais brancos, com recortes de velhos campanários, fachadas ennegrecidas dos antigos solares, e as ermidas caiadas nos cimos dos montes cobrindo com um leve e translúcido véu de misticismo pagão a hilariante festa da natureza.
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