Princípios e Questões de Filosofia Politica — Volume 2
António Cândido (1850–?)
O começo — I
O sufragio politico, que é, desde muito, um fato consumado na vida dos povos mais cultos, está ainda longe de ser um raciocínio triunfante uma verdade positivamente liquidada nas especulações da ciência.
Em quanto dominou o mundo a filosofia absoluta, que tinha a intuição por método principal, a discussão daquele fato foi apaixonada, levou alguns interessados nela à prova extrema do martírio, chegou a determinar uma formidável revolução, que é um dos acontecimentos culminantes deste século; mas a ponderação das suas dificuldades praticas e o verdadeiro conhecimento da sua índole, antinomica com irrecusaveis condições sociais, são obra de outra escola, que antepõe a análise ao entusiasmo inconsciente e a realidade das cousas ao optimismo dos espíritos.
E não são já somente os discípulos dessa escola, os puritanos seguidores da filosofia experimental, que veem no sufragio politico as dificuldades, que ele importa, e as contradições, que ele encerra. Graças à influencia dos novos métodos, sentida ainda por aqueles que fazem gala de os [2] combater, essa instituição do Direito Publico perdeu o falso prestigio sentimental que a aureolava, e é geralmente tida hoje pela mais perigosa de todas as funções sociais.
António Cândido (autor) morreu em 1922; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1993.