Discurso de Antônio Cândido (29 de Agosto de 1887)
António Cândido (1850–?)
O começo
O ilustre presidente do Ateneu apresentou-me a esta assembleia com tão encarecidas palavras de simpatia e de louvor que eu não posso deixar de pôr aqui, em primeiro lugar, a expressão do meu mais extremado reconhecimento pela sua bondade e pela sua gentileza.
Não valho o que as suas nobres palavras dizem. A mais de meio caminho da vida, não pratiquei ainda um ato que fosse útil aos outros. A ciência não me deve uma verdade; a arte conta-me entre os que a amam, não entre os que a professam. Pouco maleável, mas sem a têmpera dos que podem e sabem lutar, nem vou na corrente geral, nem consigo opor-me a ela eficazmente! E nesta consciência do que sou, até penso às vezes que melhor fora não ter nascido…
É grande superioridade não querer enganar-me?! É coragem heroica dizer o que todos sentem?! Não tenho outro talento; não exercito outra virtude.
Mas fico muito contente com as palavras que me foram consagradas. Se não exaltam o meu orgulho, consolam a vaidade do meu coração; irá guardá-las por isso a minha memória, que é fiel.
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